Especial Bauru 108 anos
Histórias entrelaçadas
Fundado em 1933 e uma das principais referências internacionais em dermatologia, o Instituto Lauro de Souza Lima apaixona os colaboradores
Daniela Bochembuzo
Em 1945, prestes a completar 17 anos, Nivaldo Mercúrio deixou sua casa, em Itápolis, rumo a Bauru, mais especificamente à estação de Aimorés. Lá, iria voluntariamente se internar no asilo-colônia de mesmo nome, no qual dez anos antes sua mãe havia sido compulsoriamente internada e onde morreria, em 1940, por complicações decorrentes da hanseníase. Tal como ela, Mercúrio não iria sair mais do lugar, mas diferente dela conheceria a cura para sua doença.

Hoje, 59 anos depois, Mercúrio mantém laços firmes com a instituição em que foi inicialmente reconhecido sob o prontuário de número 3.602. O lugar, ao longo de seus 71 anos, mudou de nome inúmeras vezes: de Asilo-colônia Aymores para Sanatório Aimorés, Hospital Aimorés, Hospital Lauro de Souza Lima e, finalmente, Instituto Lauro de Souza Lima (ILSL).

Ele acompanhou tanto as mudanças de nome quanto os avanços nas formas de tratamento da doença e do paciente, bem como suas descobertas, que resultaram na escolha do ILSL como centro de referência na área de dermatologia geral e, em particular, da hanseníase para a Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar da tristeza sofrida pela internação que o privava do contato com a família e da sociedade, decorrente do modelo adotado para o tratamento da doença nas primeiras décadas do século passado e da discriminação resultante do desconhecimento do problema, Mercúrio tem orgulho de fazer parte do ILSL.

“Foi triste. Mas apesar de tudo havia camaradagem e diversão. Aqui, aprendi coisas novas, me diverti, trabalhei e ganhei a liberdade. Faz parte da minha história”, afirma o ex-paciente, que hoje atua como monitor do museu da instituição, no qual é possível vivenciar como era a vida no asilo.

Mercúrio é um dos 40 residentes agregados do ILSL, ou seja, pessoas que continuaram a residir na instituição mesmo após receberem alta do tratamento. Totalmente integradas ao ambiente, elas se acostumaram ao crescente vaivém que toma conta da instituição. E não é pouco.

Mensalmente, uma média de 1.979 pessoas procura o ISLS em busca de tratamento para a hanseníase e outras doenças dermatológicas, o que faz o total de atendimentos superar a marca de 23 mil ao final do ano. Elas vêm de todas as partes do Brasil, algumas de outros países da América do Sul.

Para atendê-las, o instituto conta com 174 leitos e um corpo de funcionários formado por 436 pessoas. Entre eles encontra-se o médico Diltor Vladimir Araujo Opromolla. Oficialmente aposentado, ele continua participando da vida do ILSL, onde chegou em 1958 vindo de São Paulo, recém-formado em medicina. Do receio em relação ao desconhecido, prevaleceu o bom senso e cresceu o entusiasmo pelo trabalho.

De lá para cá, foram inúmeros os trabalhos publicados pelo médico, cujas pesquisas projetaram seu nome e do instituto para o mundo. “Sempre tive grandes planos e ainda tenho sonhos. É uma característica própria”, diz Opromolla, na tentativa de explicar seu apreço à pesquisa e ao ILSL.

Dedicando-se apaixonadamente ao trabalho, Opro-molla inspira outros médicos a fazer o mesmo. “Tudo na vida são exemplos. Há muito o se que fazer, porque é uma corrida de obstáculos. Por isso, é necessário compartilhar sonhos. Estou tentando fazê-lo e tenho disposição para isso”, garante.

Vocação para pesquisas

Foi em 1989, a partir do decreto número 30.521, que o então Hospital Lauro de Souza Lima foi reconhecido oficialmente como instituto de pesquisa. Com isso, passou a ser subordinado à coordenadoria dos Institutos de pesquisa da Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo.

Tal reconhecimento resultou do trabalho de médicos e funcionários, que transformaram o que poderia ser definido em interesse ou curiosidade em vocação. Uma vocação que em 1968 atraiu o primeiro grupo de estudantes de medicina ao local, em busca de informações sobre a hanseníase.

Desde então, o ILSL recebe grupos de estudantes e pesquisadores interessados em participar de cursos regulares sobre doenças dermatológicas, reabilitação, entre outros assuntos. Com a expansão desse setor, na década de 70, o instituto passou a oferecer residência na área de dermatologia, reconhecida pelo Ministério da Educação.

Além dos serviços nas áreas de dermatologia, pesquisa e ensino, o Instituto Lauro de Souza Lima também realiza atividades voltadas à terapia ocupacional, fisioterapia, cirurgias plásticas corretivas e reabilitação física.O ILSL mantém um centro de reabilitação multiprofissional, no qual são produzidas próteses de membros inferiores e sapatos ortopédicos, destinados a recuperar movimentos de pés e mãos afetados, principalmente, por doenças de pele.

O trabalho visa a melhorar a qualidade de vida dessas pessoas, cujo principal obstáculo continua a ser o preconceito. “A hanseníase é uma doença milenar, carregada de tabus. A descoberta tardia de tratamento eficaz, que veio somente em 1946, contribuiu para manter nas pessoas o medo do contágio”, aponta o médico e pesquisador Diltor Vladimir Araujo Opromolla.

Ele considera necessário o investimento em informação e a manutenção das pesquisas, como a que inclui a inoculação do bacilo da hanseníase em patas de tatus e camundongos. O ILSL é o único a fazê-lo na América do Sul. A prática é necessária para o estudo do desenvolvimento da doença e novas alternativas de tratamento.
 
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