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O Estado de S. Paulo - Espaço Aberto
Terça-feira, 8 de junho de 1999
Terapia da dor
Como médico, que trabalha com terapia da dor e medicina paliativa há
17 anos, tenho estes comentários a respeito do artigo sobre pacientes
terminais, dor e eutanásia, veiculado no Estadão (28/2):
A imensa maioria
dos médicos brasileiros não tem formação adequada para lidar com pacientes
com dores intensas e situações de terminalidade, ou negligencia estas
situações, pois nos anos de graduação e até de especialização não é
informada sobre a existência de métodos adequados e suficientes para
tratar síndromes dolorosas intoleráveis e as intratáveis como eram até há
pouco chamadas. A dor do câncer, uma terrível desgraça que assola nosso
país no nível de calamidade, hoje é possível ser controlada em 80% com
técnicas simples e os 20% restantes com técnicas um pouco mais complexas,
mas factíveis em qualquer hospital brasileiro, segundo dados da OMS.
Um
grande número de hospitais e serviços de tratamento de cancerosos não
conta com a mínima estrutura de terapia da dor e medicina paliativa.
Discutir eutanásia no Brasil, no momento, é verdadeira extemporaneidade,
pois não oferecemos as mínimas condições de uma terminalidade digna de
vida aos nossos pacientes fora de possibilidades de cura, mesmo nos
hospitais que atendem a classe A da população. Não temos no Brasil uma
massa crítica de profissionais formados adequadamente para lidar com
pacientes terminais, ou com dor intensa. Ainda nos hospitais escolas e
algumas outras poucas instituições estão começando instituir serviços de
terapia da dor e medicina paliativa.
O Hospital Amaral Carvalho de Jaú
fundou há sete anos a primeira enfermaria de medicina paliativa para
cancerosos terminais. Alguns números atestam a situação brasileira
desalentadora, em relação ao atendimento dos pacientes com dores intensas:
o Brasil, com 160 milhões de habitantes, tem 53 clínicas de terapia da dor
e talvez umas dez iniciativas de clínicas de medicina paliativa para
atender os pacientes terminais; a Inglaterra, com 10 milhões a menos de
habitantes do que o Estado de São Paulo, tem 472 clínicas de medicina
paliativa; e os EUA contam com mais de 2 mil centros só para terminais.
Vale lembrar que nos EUA, mesmo nos Estados que liberaram prática da
eutanásia, esta não aumentou por causa do fato de terem estrutura de
cuidados paliativos adequados para pacientes terminais. A prescrição
correta de morfínicos potentes, para dores intensas, em nosso país é
ridícula, ao redor de 100 quilos/ano, sem contar que a imensa maioria dos
médicos e enfermeiros sofre da ópiofobia (palavra utilizada nos EUA para
designar aqueles que têm medo de prescrever estas drogas) e não sabe
prescrever de forma correta estas drogas de forma a deixar estes pacientes
aliviados e ainda participativos de sua vida familiar, de lazer e muitos
deles trabalhando até perto de sua morte.
Na Inglaterra prescreve-se mais
de 1,8 mil quilos/ano de morfínicos para controle de dor. Caso a prática
da eutanásia seja liberada em nosso país, sem a tão necessária educação e
treinamento dos médicos e enfermeiros para lidarem com a dor intensa e a
terminalidade de nossos pacientes, com certeza teremos estes sendo mortos
para aliviarem não seus sofrimentos, mas seus médicos e seus familiares
que se estarão livrando deste problema que não souberam resolver. A
terapia da dor e a medicina paliativa não vencem a batalha contra a morte,
mas oferecem uma vitória digna para o paciente, seus familiares e o médico
contra o sofrimento.
Antônio Carlos de Camargo Andrade Filho, médico, Jaú
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