31 de março de 1999
O alívio da dor
KÁTIA STRINGUETO Dentro de alguns meses, deverá ser aprovado um projeto de lei que determina a inclusão de 15 horas de estudo sobre a dor durante os seis anos dos cursos de Medicina do Brasil. Aos leigos, a proposta espanta pela ridícula quantidade de horas. E também por que é preciso fazer uma lei para que os futuros médicos conheçam um pouco mais sobre um dos maiores sofrimentos do homem? A resposta é cruel. É preciso fazer uma lei porque a medicina costumava ignorar o fato de o paciente sentir dor. Mesmo não sendo poucos os que padecem. Estima-se que no Brasil, no mínimo, 35% da população – ou seja, 56 milhões de pessoas – sofra de dor crônica, por definição aquela que dura mais de seis meses ou aquelas sem causa definida (nesses casos, a dor em si é classificada como doença). E esse descaso não acontece somente no Brasil. Nos Estados Unidos, uma pesquisa mostrou que metade dos 50 milhões de americanos que têm dor prolongada nem sequer foi requisitada a descrever seu problema. Isso inclui os pacientes que sofrem de câncer, diabetes, portadores do HIV – o vírus da Aids – e até doentes com problemas menos graves, como dores de cabeça ou nas costas.
Felizmente, há sinais de que médicos e cientistas começam a mudar seu olhar sobre a dor. Nos últimos dez anos, profissionais do Grupo da Dor do Hospital das Clínicas, em São Paulo, por exemplo, já trouxeram alívio para mais de dez mil pacientes, utilizando uma combinação que inclui desde antiinflamatórios potentes até técnicas de relaxamento. "Atendemos uma média de 800 novos casos por ano", diz o neurocirurgião Manoel Jacobsen Teixeira, coordenador do grupo. Quem sofre de dores crônicas, portanto, pode começar a ter esperanças. O ponto de partida para o alívio é um diagnóstico preciso – o que nem sempre é fácil. De acordo com uma pesquisa realizada pela Clínica Mensana, dos Estados Unidos, entre os pacientes que procuram o local, de 40% a 67% estavam sendo tratados de forma errada por falha no diagnóstico. Para ajudar, a clínica tem um site na Internet que se propõe a esclarecer dúvidas para os doentes (http://mensana-clinic.com/). É simples entender a razão de tamanha dificuldade. A dor, como a febre, é um alerta de que algo está errado. As mais comuns ocorrem nas costas, na cabeça, nos músculos e nas articulações. Mas por ter causas diversas, a dor nem sempre se manifesta no lugar onde está havendo o distúrbio. Um problema no estômago, por exemplo, pode resultar em uma tremenda dor de cabeça. A tecnologia, no entanto, promete dar uma ajuda nesse jogo de esconde. No Brasil, a novidade na área de diagnóstico é um aparelho chamado teletermógrafo, capaz de detectar pontos de dor que não apareceram por meio de outros exames, como radiografia, tomografia ou ressonância magnética. "O teletermógrafo capta variações de raios infravermelhos emitidos pelo corpo e aponta as regiões com problemas onde a dor está sendo gerada. É indicado para casos mais difíceis, quando os pacientes recebem o rótulo de hipocondríacos ou doentes psicológicos", explica Antonio Carlos de Camargo Andrade Filho, chefe do centro de terapia da dor do Hospital Amaral Carvalho, de Jaú, interior de São Paulo.
Diagnóstico fechado, é partir para o tratamento. A maioria dos especialistas começa pelos medicamentos antiinflamatórios e relaxantes musculares. Até porque é uma maneira de tirar o doente da fase aguda. A novidade das farmácias é o Celebra, da Searle/Pfizer (até julho, um medicamento similar, o Vioxx, do laboratório Merck, chegará ao Brasil). Trata-se de antiinflamatórios de última geração que não agridem o estômago. Eles inibem a ação da enzima cox-2, que agrava a inflamação, mas não interferem na ação de outra enzima, a cox-1, cuja função é proteger o estômago. Os outros antiinflamatórios atuavam nas duas substâncias, por isso o estômago saía prejudicado. Esse medicamento pode ser indicado para vários tipos de dor, em especial aquelas que tem origem inflamatória, como a artrite ou artrose. Outra classe de drogas que vem se modernizando são os anticonvulsivantes. Usados originalmente para controlar convulsões em epiléticos, esses medicamentos também são indicados para tratar dores provocadas por lesões nos nervos como as que acontecem em pacientes com diabetes ou neuralgia do trigêmeo, que ocorre no nervo facial (leia quadro abaixo). Esses pacientes, assim como acontece no epilético, sofrem uma instabilidade elétrica na membrana das células nervosas que as faz enviar estímulos dolorosos espontaneamente. Ao controlar essa atividade da membrana, a dor é atenuada. "Nesses casos, o nervo pode ser comparado a um fio desencapado. O anticonvulsivante age como se estivesse recobrindo o fio", explica a anestesista e acupunturista Neli de Meneses Ferreira Stabel, da Universidade Federal de São Paulo. Quem se beneficia desses remédios só tem a comemorar. Foi o que aconteceu com o engenheiro aposentado Arcádio Perez Bernal, 67 anos, vítima do diabetes. "Aos poucos as complicações da doença foram me trazendo muita dor pelas pernas. Pensei que teria de usar cadeira de rodas. Agora consigo subir escada, andar. É maravilhoso", comemora. O Neurontin (laboratório Parke-Davis), lançado no final do ano passado, e o Topamax (laboratório Janssen Cilag) são a última novidade nesse tipo de remédio.
Opções Outras técnicas da fisioterapia também trazem bons resultados. Entre elas estão a termoterapia (aplicação de estímulos quentes ou frios), laserterapia, cinesioterapia (aparelhos que estimulam a movimentação de áreas lesadas para evitar que atrofiem) e o tens (aparelho de estimulação elétrica que promove maior circulação sanguínea e liberação de substâncias analgésicas). Essas vibrações elétricas têm sido uma bênção para a dona de casa Maria Aparecida Cardoso, 52 anos. Ela tem disfunção da articulação temporomandibular (ATM), problema de causas múltiplas como stress, má-oclusão (alterações na mordida) e propensão genética. "A dor era uma bola-de-neve. Começava com algumas pontadas e ia se intensificando até o insuportável. Fiquei três anos sem poder encostar no lado esquerdo do rosto. Meus netos não podiam me beijar", lembra. A fisioterapia associada às infiltrações anestésicas no músculo da mastigação e ao uso de uma prótese dental para acertar a mordedura controlaram o problema. A luta contra a dor é tão complexa que a medicina tradicional adotou métodos alternativos para compor o front. E valeu a pena. A acupuntura tem surgido como uma das melhores opções para abrandar o sofrimento do corpo. A forma pela qual a acupuntura atua pode ser explicada por duas teorias. Uma que se baseia no princípio da circulação de energia pelo corpo – na visão oriental – e outra, mais ocidental, que atribui o alívio ao poder que as agulhas têm de estimular a liberação de substâncias analgésicas. Segundo o cirurgião vascular e acupunturista Wu Tou Kwang, de São Paulo, as duas teorias estão corretas. "A dor é sintoma de energia bloqueada. As agulhas servem para desfazer o bloqueio e reativar a circulação energética. Quando o fluxo de energia melhora, o sangue também circula, levando embora as toxinas que deixavam a região dolorida", explica. "Ao mesmo tempo, as agulhas também geram estímulos nervosos que provocam uma descarga de substâncias analgésicas", diz. O fato é que o alívio é imediato. Por isso, a advogada aposentada Adelaide Azevedo, 66 anos, se submete às sessões de acupuntura há sete anos para atenuar dores fortes decorrentes de uma hérnia de disco e de um enxerto de vértebra na região cervical. "Com a acupuntura me sinto bem. A dor continua constante, mas leve, e posso ter uma vida normal", explica. Com mecanismo de ação igual ao da acupuntura, o shiatsu – técnica japonesa de massagem – vem trazendo bons resultados. "Em vez de agulhas, usamos os dedos para pressionar e massagear os pontos de energia bloqueada ", explica a paulista Luiza Sato, especializada em shiatsu.
Reflexo na alma Apoio psicológico
O relaxamento no alívio da dor é tão fundamental para o paciente como difícil. Depois de tanto tempo contraindo a musculatura para se defender do sofrimento, ele nem se lembra mais do que é estar relaxado. Por isso, em alguns casos, psicólogos e neurologistas utilizam a hipnose – na verdade um instrumento da terapia – como meio eficaz de minimizar a tensão. O terapeuta induz o paciente a pensar em praias tranquilas, música suave e, ao mesmo tempo, tenta fazer com que a sensação de dor seja alterada. "Se o paciente sente uma espécie de queimação na região pélvica, por exemplo, o induzimos a trocar essa sensação por outra", explica Arthur Ungaretti Jr., neurocirurgião do Hospital das Clínicas. Por incrível que pareça, o simples fato de experimentar uma sensação diferente no local já atenua a dor. Para a jornalista Marisa Rodrigues, 28 anos, dez deles sofrendo de cistite intersticial, um caso raro de inflamação na bexiga que não tem cura, a hipnose é um bálsamo. "Entro em estado de relaxamento profundo e consigo dormir. Antes, passava a noite fazendo banhos de assento e chorando de dor", conta. Pode parecer pouco. Mas para quem o sofrimento do corpo se torna uma constante, qualquer trégua significa muito. E, se depender do esforço de médicos e terapeutas, essa trégua será, em breve, um alívio profundo e definitivo. Colaboraram: Carla Gullo, Cilene Pereira (SP) e Osmar Freitas
Jr., de Nova York Cabeça boa ISTOÉ – Como seu método colabora para acabar com a dor
de cabeça? ISTOÉ – Por que é tão difícil curar a
enxaqueca? ISTOÉ – Quais?
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