O Estado de S. Paulo na Internet
1996
O Contrário do prazer
Lúcia Camargo
A dor é definida pela Medicina como "uma experiência sensorial e emocional
de desprazer associada a um estado atual ou potencial de lesão, ou em termos de
tal dano."
Os médicos Antônio Carlos de Camargo Andrade Filho e Affo nso Carneiro
Filho, membros da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor, escreveram o livro
"Vencendo a Dor", no qual definem a sensação como "um estado de alma, uma
experiência oposta ao prazer".
No Brasil, o combate à dor avança. "Estamos conseguindo bons resultados,
pois a classe médica aos poucos se sensibiliza com o problema", analisa Camargo,
fundador do centro de Terapia da Dor do Hospital Amaral Carvalho, em Jaú, e
membro da International School for Cancer Care do St.Peter´s College, da
Universidade de Oxford, Inglaterra, e da Iasp-Internet Task Force on Pain
(Força-Tarefa da Associação Internacional para o Estudo da Dor na Internet).
"Sou completamente realizado com relação aos meus sonhos de médico", declara.
Há no País atualmente 43 clínicas de dor catalogadas pela Sociedade
Brasileira de Estudo da Dor. A Inglaterra tem 471 clínicas de dor só voltadas
para as dores do câncer, e os EUA, 2.200.
A dor do doente na fase terminal do câncer é considerada como a pior pelos
médicos. A dor, nesses casos, é dispensável. Pacientes terminais de câncer não
precisam da dor para saber que estão doentes, somente querem algo que os alivie
do sofrimento crescente. A dor só seria útil como sinal se desse o alerta logo
no início do câncer, o que raramente ocorre.
A Organização Mundial de Saúde aponta que 70 a 80% dos cancerosos com doença
avancada terão de dor intensa à intolerável. A dor incontrolável é uma das
causas mais comuns de suicídio. O desejo de morte parte do sentimento de
desesperança, levando também aos pedidos de eutanásia.
Dor crônica atormenta secretária durante seis anos
A secretária Leonízia Brasileira Lopes dos Santos, de 40 anos, passou seis
anos com dor crônica. Hoje está praticamente livre do mal. "Parei de trabalhar,
ficava o dia inteiro na cama, não tinha ânimo para nada, tomava quilos de
analgésico e corticóide, mas aquela dor não me largava", conta.
A causa da dor foi uma cirurgia na qual foi extirpado um tumor do seu tórax.
O tumor foi curado, mas a incisão cirúrgica cortou-lhe alguns nervos, e os
médicos só recentemente descobriram que o nervo disparador do alarme da dor na
região persistiu informando o cérebro de que havia algo errado a partir de uma
memória estruturada na medula espinhal, mesmo o tumor não estando mais lá.
O que intriga os médicos é que a dor crônica só começou dez anos depois da
operação, feita em 1980. "Antigamente, acreditava-se que cortando cirurgicamente
um nervo se interromperia a transmissão de uma dor, mas hoje sabemos que este
tratamento acaba produzindo uma dor pior do que a original, e às vezes quase
impossível de ser tratada", diz Antonio Carlos de Camargo.
Moradora de Goiânia (GO), Leonízia fez vários tratamentos em clínicas de São
Paulo. Tentou acupuntura, fisioterapia, aromaterapia e outros tratamentos
alternativos. "Ninguém descobria o eu tinha", relata. "Passei por vários
estágios: primeiro, desesperada. Depois angustiada. E, nos últimos tempos,
estava completamente apática, desejando a morte."
Leonízia também tinha dificuldade em descrever sua dor. "Era insuportável: um
médico me pedia para dizer o quanto doía, numa escala de 1 a 10. Eu dizia 10 e
percebia que ele não acreditava", lembra. "Não saía pela rua gritando como uma
louca, então minha dor era vista como algo menor", avalia.
Hoje internada no Hospital Amaral Carvalho, em Jaú, no interior de São
Paulo, faz tratamento à base de anestésico geral que age sobre a memória da dor,
e usa bomba computadorizada do tipo da bomba de morfina, além de praticar
terapia ocupacional e fisioterapia. "Ainda não estou completamente sem dor, mas
já tenho ânimo para sair de casa, escolher um prato em um restaurante, enfim
coisas que antes eram impossíveis."
(Lúcia Camargo)
Centro de Terapia da Dor do Hospital Amaral Carvalho: Rua da Silvéria,
150, Jaú - SP - tel. (14) 620-1368
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