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Associação Brasileira de Cuidados Paliativos 26/05/2002
ESTAMOS PREPARADOS PARA A MEDICINA PALIATIVA NO BRASIL?
A Medicina Paliativa é uma especialidade relativamente nova no
Brasil. Ela chega ao Brasil pelo clamor dos pacientes terminais e
seus familiares diante do intenso sofrimento a que estão expostos
Jacira Caracik de Camargo Andrade (1) e Antônio Carlos de
Camargo Andrade Filho(2)
Até os séculos XVI e XVII, a
morte era aceita como uma ocorrência natural da vida. As pessoas
preocupavam-se em encontrar um significado para a morte por meio da
religião. Todos tentavam tornar a morte o mais confortável possível.
Na literatura, encontramos inúmeras obras de autores temerosos à
morte ou que escreviam, justamente, belas obras ao saberem estar
doentes, como no Romantismo, no qual, freqüentemente, lemos citações
sobre a tuberculose e muitas cartas de despedida da vida e de seus
amores. No leito de morte, quantas pessoas não recebiam os
familiares e amigos para uma despedida ou para dizer o, até então,
não dito? Mas, com o advento da medicina moderna, a morte tornou-se
uma inimiga. Quase um assunto tabu. As pesquisas na área
médica, o uso da tecnologia e o desenvolvimento de novos
medicamentos direcionaram-se no sentido de tentar prolongar ao
máximo a vida, custe o que custar. Enquanto isso, na Inglaterra, uma
enfermeira, chamada Cicely Saunders, angustiada ao ver seus
pacientes sofrendo nos seus últimos dias, às vezes com dores,
outras, com vômitos, sendo submetidos a procedimentos invasivos e
traumáticos, com odores repugnantes, perguntava aos médicos se não
havia uma forma de amenizar aquele sofrimento. A resposta de um
deles incentivou-a a estudar medicina e a desenvolver tratamentos e
técnicas justamente com essa finalidade. Iniciou-se aí a história da
Medicina Paliativa, especialidade tão reconhecida na Inglaterra e em
muitos países desenvolvidos. Mas, por que a nossa
preocupação em escrever este artigo? Desde 1985, temos acompanhado
os conhecimentos sobre a Medicina Paliativa e, desde essa
época, em muitos eventos médicos, temos ouvido falar sobre o
assunto. Há oito anos trabalhamos no Serviço de Medicina Paliativa
do Hospital Amaral Carvalho, em Jaú, voltados para o acompanhamento
de pacientes, na maioria das vezes oncológicos, considerados fora de
possibilidades terapêuticas. Tivemos também a oportunidade de
fazer um curso teórico-prático sobre o assunto na Universidade de
Oxford. Lá, não só nós, como outros colegas do curso vindos de
diferentes países subdesenvolvidos de todo o mundo, constatamos
que essa prática, de baixo custo e baixa tecnologia, é de difícil
aceitação em seus países também. Tentamos, então, postular
algumas possíveis hipóteses para essa resistência em nosso país:
Também, não queremos apenas apresentar
problemas. Assim, preparamos um rápido resumo sobre as questões
éticas que envolvem a Medicina Paliativa. De início,
gostaríamos de definir o que é a Medicina Paliativa. É aquela cujo
principal objetivo é promover o conforto para o paciente nos seus
últimos dias. Seus princípios básicos são: Freqüentemente, ouvimos que o principal
objetivo dos cuidados paliativos é a “qualidade de vida”. Temos que
lembrar que o conceito de qualidade de vida é subjetivo. Podemos
dizer que há uma boa qualidade de vida quando as aspirações de um
indivíduo são possíveis de ser realizadas no presente momento. A
qualidade de vida é ruim quando existe uma grande distância entre
aspirações e a possibilidade de realização desses sonhos. Para
melhorar a qualidade de vida é necessário diminuir esse
distanciamento dentro da realidade do paciente. Outro
importante aspecto é o ético. A Ética da Medicina Paliativa é a
mesma da Medicina, claro. Cabe aos médicos preservar a vida e
aliviar o sofrimento. Logicamente, no final da vida, aliviar o
sofrimento é por vezes mais importante do que preservar a vida.
Temos que considerar quatro pontos cardeais: Esses quatro pontos cardeais devem ser aplicados nas
circunstâncias de respeito à vida e aceitação da condição inevitável
de morte. Na prática, isso acarreta três dicotomias: Assim, tendo em mente que somos mortais, temos que lembrar
que a arte da Medicina está na decisão de quando a manutenção da
vida é essencialmente fútil, infrutífera e, a partir daí,
permitir que a morte ocorra sem que haja um maior impedimento. Um
médico não é obrigado, legalmente ou eticamente, a preservar a
vida a “todos os custos”. Ao contrário, a vida deverá ser mantida
quando, do ponto de vista biológico, for sustentável. As prioridades
mudam quando o paciente claramente está morrendo. Não há obrigação
de empregarmos tratamentos se os seus usos podem ser mais bem
descritos como prolongadores do processo de morte. Ao médico,
não cabe o papel e nem o direito de prescrever um método que reduza
o tempo de vida. Não é o caso de tratar ou não tratar, mas,
qual o tratamento mais apropriado do ponto de vista biológico, do
ponto de vista pessoal (do paciente) e das circunstâncias sociais.
Um tratamento apropriado para uma pessoa agudamente doente pode ser
totalmente inapropriado para um doente em fase terminal. Sondas
nasogástricas, infusões endovenosas, ressuscitação
cardiorrespiratória e respiração artificial são, todas, medidas
para uso em estados agudos ou em doentes crônicos “agudizados”, que
tenham a perspectiva de recuperar a saúde. Usar esses procedimentos
em pacientes terminais, e nos quais a perspectiva de recuperação da
saúde não existe, é, geralmente, inapropriado. O cuidado
médico é um continuum que pode ir da cura completa, de um lado, ao
alívio de sintomas, do outro. É importante ter em mente,
claramente, o objetivo do tratamento em quaisquer possibilidades
terapêuticas: cirurgia, quimioterapia, radioterapia e ou
tratamento clínico. E, optando-se pela conduta adequada, ter em
mente: Embora exista uma pequena possibilidade de melhora
inesperada, há muitas ocasiões nas quais se torna mais apropriado
“dar uma chance para a morte”. Ao nosso ver, esses conceitos precisam estar bem claros, não
só aos médicos com interesse em Medicina Paliativa, como a todos os
médicos, para que possamos, um dia, dizer aos nossos pacientes
como a Dra. Cicely Saunders: “Você é importante porque você é único.
Você será importante para nós até o último dia da sua vida, e nós
faremos tudo o que pudermos, não apenas para que você morra em paz,
mas para que você ‘viva’ até o momento da sua morte”.
(1)
Médica Titular da Sociedade Brasileira de Clínica Médica. Ex-aluna
da International School for Cancer Care do St Peter’s College,
University of Oxford. Endereço para correspondência |